sábado, 9 de junho de 2018

Pertur.BIO

Para ser sincera, quando me falaram: “Escreva sobre aquele homem!”, eu fiquei vagando dentro de um espaço, que não poderia ser o meu. Escrever o quê? Pois bem, então tentarei escrever alguma coisa, pensei. Como eu, uma perturbação propagada no espaço, pensaria em escrever alguma coisa que fosse real o suficiente, para sair do papel e dar movimento à construção de uma fala?
Bem, prazer. Esta sou eu. Amy Waves. Sim, o mesmo “Waves” de ondas... Aquelas coisas que se propagam em alta velocidade, transportando energia e informação pelo espaço. Aquelas que não precisam de um meio material para existirem, como eu. Mas o que falar sobre aquele homem? O homem morto que me antecedeu? Ele já disse quase tudo sobre si mesmo, eu pensei, relendo o que ele já tinha publicado.
Ele foi homem para caramba, puxa vida! Mesmo sem saber que era pansexual, de gênero fluído, até seus vinte e quatro anos, já tinha se formado, pós-graduado, se juntado com sua ex-namorada (por quase um ano), mudado tantas vezes de cabelo que acho que até ele perdeu-se nas contas. Era um daqueles pobres infelizes que sentiam grandes amores e nunca os vivia por completo. Amou por três vezes, um amor sobrenatural, mas que nunca deu certo. Primeiro pela menina morena, que foi embora tão cedo. O ridículo ficou dois anos sonhando com o impossível: que ela voltasse para ficarem juntos, celebrando aquele amor de mãos dadas e sem intenções, que aos dez ou onze anos ainda nos é permitido, ou ao menos era, pois hoje o tempo não é mais cronológico.
Abre parênteses: sobre o segundo já nem se fala! Foi tão falado em terapia, que nem parece mais um sentimento. Quebrando um pouco o vínculo de segredo do paciente, daquele homem que me antecedeu, confesso que foi descoberta a seguinte afirmativa: “Vinicius, você nunca amou aquele menino. O que você amou foi a imagem, que depois se materializou nos seus livros, e você viveu aquilo como se fosse real. Deixou seu subconsciente ganhar mais forma do que era consciente. O seu amor foi inventado”. Grandes histórias aquelas, sobre o homem que amava outro homem sem ser amado. Morreu porém com culpa, diante da dúvida de sua palavra. O que foi aquilo no carro? Passou a ser mentiroso, mesmo não sendo. O personagem era de mentira, não condizia com a pessoa real. Mas sabe, confesso que ele me disse uma vez, ainda por carta, que estava feliz por pensarem que era mentira. “Quem é que quer, com a boca cheia de dentes, esbravejar que ama e que ficou com alguém que não tem respeito pelo próprio corpo?”, ele disse. Antiquado? Nada moderno? Atrasado? Talvez. Mas ele ainda preferia, e acho que posso falar isso por ele, a qualidade a quantidade.
Uma história? Você quer que eu conte uma história sobre isso, que ninguém saiba? Bem, vejamos... Lembro-me de uma vez que recebi uma carta muito florida, com todas as palavras escritas em caixa alta, e muitos e muitos símbolos de alegria, dizia bem no começo: “AMIGA AMY, EU DEIXEI DE AMAR ELE!”. O Vinicius estava feliz, mais feliz do que nunca, sabe aquelas felicidades pequenas, tipo torta de bolacha com chocolate? Pudim de leite condensado? O sol em um dia frio de inverno? Bem... Era assim que idealizei aquele enunciado. Mas, depois de algumas linhas, percebi que o maior e o melhor motivo daquilo tudo, era a torta de maça principal. Ele escreveu para mim dizendo: “Fiz minha primeira torta de maça, e adivinhe! Convidei ele para vir até aqui, servir o pouco do resto do amor que eu ainda tinha. Foi uma experiência bacana, ver ele comer dois pedaços servidos no prato dos meus cachorros. Para um bom mentiroso, lambeu até os dedos. Verdade seja dita, se não é válida a história do carro, vou tratá-lo como trato os meus animais [...]”. Nem posso dizer como fiquei surpresa com isso! Não parecia ser alguém que guardava veneno, ou que remoía pequenas e cotidianas vinganças. Me perdoe Vinicius, tive que contar!
Sobre quem? Como? Você quer saber sobre aquele terceiro amor? Neste eu estive mais presente, e acompanhei de perto. Vi todo o processo com olhos atentos, e não pude evitar me comover com a situação em que ele partiu do mundo. Porque eu estava lá naquele dia. Estava lá andando com ele, abraçando-o e levando-o para casa, pois o mundo dele estava acabado. Isso me corta o coração. Foi com desespero que me joguei sobre os pés dos que passavam, pedindo por socorro quando aquele carro entrou pela contramão nos atingindo em cheio na calçada. Estava me acostumando a morar em Pato Branco, cidade pequena e diferente das capitais. Bem, é que ele não era mais o mesmo depois do segundo que amou. Eu via dentro dos olhos cansados daquele homem, suas três tentativas fracassadas de suicídio. Não existe a possibilidade de não ver o mundo quebrado dentro de outros olhos.
Foi em Outubro de 2017 que eles voltaram a conversar. Eram aquelas conversas bobas e fiadas de alguém que quer puxar assunto para manter uma linha de raciocínio e interesse. Não era um amor no começo de fato. Lembro que ele me mostrou uma conversa e me disse: “Bem, acho que não sou bissexual Amy, existe algum problema nisso?” “Nisso, o quê?” perguntei novamente não entendendo o motivo da pergunta, “Ele é Drag”, “Não vejo nada de errado com isso” respondi tranquilizada. Mas precisamos falar sobre isso? Não acho que devo entrar dentro de histórias pessoais de duas pessoas desta forma. Eu sei que falei sobre o primeiro e o segundo amor, porém eram inocentes e idealizados, não eram com pessoas reais, não envolviam histórias reais, lugares reais (além do carro), palavras reais... Esta conversa está me deixando indisposta! Não quero falar mais sobre isso. Posso indagar até que ponto o G. (vou denominar ele como apenas uma letra do alfabeto) foi humano o suficiente, dizendo e mostrando ser uma boa pessoa, permitindo que chegasse em um ponto insustentável onde ele sabia que alguém o amava tanto, que largaria tudo (como ele fez depois do acidente em Março)... Preciso dizer isso? Foi ele que matou meu melhor amigo, como você acha que me sinto falando sobre este assunto?
Acidente? Sim, houve aquele acidente, bem lembrado. Mas o fato é que silenciar é abrir brechas para o absurdo do mundo. Junte isso com todas as coisas que o Vinicius deixou por escrito, no seu último livro póstumo “D.Errºxªta²!” que você tem o recheio completo. Me sento na cama tentando entender o que se passou com eles. Vinicius me parou um dia e disse: “ G. vai vir até aqui, e falou que posso perguntar o que quiser saber”, mas sei que G. nunca respondeu de verdade uma pergunta. Se entrei em contato? Não. Não quero entrar em contato com um assassino. Não é à mim que ele deve pedir desculpas. Agora é tarde para isso. Aquele homem está morto porque não aguentou o acidente, não aguentou saber que dentro de uma semana você, G. veio mais de três vezes para dentro de um mundo por completo, com casa, família, lugares e amigos... E foi embora em um domingo para não mais voltar, dizendo tudo que podia e muito mais, deixando aquele homem sozinho na rodoviária com o peso de dois mundos, indo, depois de horas chorando na praça, expulsar os demônios do mundo no chão do chuveiro. E aquele maldito silêncio de dias? Lembro que lia as coisas que ele mandava para o Vinicius com a frase: “Não quebre o silêncio se não for para melhorá-lo”. Besta ele, que não sabia que isto apenas servia para a música e não para pessoas, qual é cara? As pessoas não são notas musicais e nem estilos para serem melhoradas, elas são elas e são o que são... E assim sem nenhuma explicação ele diz: “Estou indo embora, morar com ele”. Morar com ele? O mesmo das fotos que você curtiu naquele domingo da ida, não pense que ele não viu. Me contou tudo depois, culpando-se por não ser interessante o suficiente para alguém ter algum vínculo. Você o matou muito antes do acidente. Não quero mais falar sobre isso... Também tenho os meus próprios demônios pessoais. Sou uma mulher imaterial no mundo, como tantas outras também são...
Sobre que história? Ah tá. Que ninguém saiba, certo? Bem, acho que é neste blog que existe um texto intitulado “Já Sinto”, isso até me restituiu um pouco do humor perdido. G. não dizia nada, e o Vinicius não era nem um pouco burro. Não repitam isso em casa, crianças! Ele descobriu quem era a pessoa, bem simples. Porém, disse-me ele “Não era tão óbvio?”, e foi daí que ele escreveu sobre o trabalho de outra pessoa, com subjetividade até o pescoço. Rimos muito do resultado... Bem, sobre o trabalho e os elogios ele me disse que eram verdadeiros, mas vindo de alguém que deu torta em prato de cachorro, há de se desconfiar se foi intencional ou não. Tem outras coisas, porém fiquei sabendo que estão juntos, e não quero estragar as núpcias do casal. A psicóloga ainda insistia em dizer: “Deixe de ser ingênuo”. Bem, antes de morrer ele deixou de ser bem mais do que isso, talvez fosse o estado da consciência em que alguém chega quando descobre que não tem mais tempo. E para ele, o tempo nunca foi o mesmo tempo cronológico da história. E cansei de falar sobre isso. Para ser sincera, cansei das perguntas, sumam daqui! Foda-se essa porcaria toda, espero ter ajudado em algo. Se não, boa sorte, boa vida, boa morte! Ainda estou perturbada com alguns fatos...

Dia 09 de Junho de 2018, Amy Waves.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

D.Errªx°ta!²


I.

Diziam as más línguas que eu era filho de chocadeira e bastardo. Apesar de varão, não aparentava lá aquelas coisas com o meu pai, um homem exilado no meio das plantações, com suas premiações esportivas tão tolas. Como disputar com alguém que veio antes de mim, sem um gene misturado, bem mais interessado e interessante? Eu havia sido feito para a derrota.
A mãe que eu nem cheguei a conhecer (e que todos diziam ser a pior espécie), uma dessas vagabundas de estrada sem sorte, morreu antes de ver o meu quarto azul melancolia, pintado com as cores daquele homem-animal melhor do que eu, que nunca havia sido um derrotado e acabava tudo com honrarias e êxitos.
Com um punhado de discos de vinil sobre plumas e paetês, trancado no meu mundo, sempre escolhia ouvir o “Alladin Sane” do David Bowie. Talvez pelo nome sugerir algo similar a “uma senhora insana – a lady insane”, e gostava de me caracterizar e pensar como uma mulher desvairada e insana.
Isso me amaldiçoou a não cruzar os corredores sociais quando vinham visitas em nossa casa. Hoje, por exemplo. Meu excesso de brilho nos olhos, unhas pintadas e vestido até as canelas, quebravam com a rudeza e hospitalidade daquele homem-pai tão limpo, de barba feita, cabelo cortado e feição de sujeito boçal. Nariz alongado, com um olhar sempre fechado, ferido na pele pelos dizeres e ditados de seus pais, e dos pais dos seus pais, todos ancestrais a invenção do fogo.
Fui batizado e criado como um menino. Mas, escondido fazia bonecas de palha no celeiro, usava os lençóis como capas imaginárias, envolvendo a minha pele como a seda envolve o corpo de qualquer mulher. Amoras silvestres pintavam minha boca, os batons naturais que a vida me dava ali mesmo no jardim, sem precisar ir até a cidade e encarar os olhos amedrontados daqueles homens e mulheres que não sabiam se divertir. Como saberiam? Mal sabiam quem eles eram, aonde eles estavam, para onde eles iriam. Eu sabia, sempre soube e saberei. Estava atrelado sobre a minha pele a sensação de subir sobre um Scarpin vermelho de bico fino, a única herança da mulher que habitava uma lembrança criada, e que todos em casa chamavam de minha mãe. Minha mãe de verdade, nos meus devaneios, viria dos céus com a minha família, e isto já era um fato acertado pelas pendências e dívidas do carma reverso.
- Abaixe o volume deste rádio, não consigo conversar na sala! – disse meu pai, escancarando a porta do meu quarto aos berros.
- Não posso descer, nem sair, nem ouvir música... Que horas é o meu banho de sol, senhor carcereiro?
- Já viu que horas são?
- No meio do nada onde vivemos, nem os relógios trabalham para o tempo, homem. Que diferença vai fazer? O barulho só vai incomodar os mosquitos, corujas e sapos. Ou vai me dizer o contrário disso tudo, você que sempre foi tão certo?
- Este barulho me incomoda.
- Não é o barulho, sou eu. E você bem sabe disso. Eu existir é o mesmo que você não sustentar a imagem intacta que tem. E tenho cada dia mais gosto de representar este papel na sua vida...
- Escute aqui garoto, se continuar me desacatando, pegue suas coisas e vá embora. Não preciso sustentar alguém como ti no mundo. Minha obrigação já foi feita, é um homem crescido e detentor das próprias escolhas. Poderia casar-se com uma mulher que fosse honesta e submissa, ter filhos batizados aqui perto na nossa igreja, erguer com o seu trabalho a terra de todo dia, mas..
- Para quem tudo isso? Erguer o que com o meu trabalho? Vender as migalhas do que eu sou, isso sim, para aqueles cada vez mais enricados com o excesso de suor e labuta alheia.
- Desliga a porcaria do rádio e por hoje eu quero silêncio...
Eu não queria o silêncio, queria o ruído da minha voz entrando e saindo pelos ouvidos dele, dizendo em bom e alto som: “sou viado”. Tombei sobre a cama, empestilhado com ideias ruins, calado mais por desânimo do que por imposição de ordens. O céu anêmico transbordava de estrelas.
No mais alto, conspiravam todos os deuses, sobre a pior das traições da espécie. Via-se isso nos rastros luminosos das estrelas cadentes que passavam de segundo em segundo, queimando de leste a oeste todo o céu. Não parei para observar atrás de uma janela encardida e sem cortina, fui até o campo que nesta época do ano estava limpo e claro, como a minha alma quando expurgava as indelicadezas e parcimônias de afetos paternos.
Corri com os meus sapatos impregnados com terra e orvalho, abri uma garrafa de vinho e contemplei o espetáculo: eram pontos e mais pontos em expansão, ligando planetas e estrelas que não sabiam de sua própria existência. Deveria ser agradável brilhar sem nenhum motivo, sem saber que se existe.
Caleidoscópio mental de flores para todos os mortos e afeminados. Bati com a cabeça em um reflexo sedutor e deitei na grama. Um objeto esférico de fogo me paralisou pelo medo. Como um rastro serpentuoso deixado na escuridão, uma forma sem métrica me enchia de chuva lodosa, um líquido viscoso e escuro, mais denso que meu sangue. Entrava sobre mim e me sentia uma ratazana imunda, coberto de cogumelos em um tronco partido e rachado ao meio. Os trovões e relâmpagos do céu encenavam um show mitológico de horror. Escurecia como as nuvens de vapor mais gasosas do que a fumaça que subia do meu corpo quente de jovem, caído sobre um punhado de nada. Eram luzes que vinham de um ponto cada vez menos distante sobre minha pele, dando o sentimento da aspereza e acidez na boca, corroendo meus braços e subindo até a linha do pescoço, fazendo brilhar no meu polegar esquerdo a palavra “D.Err(axo)ta!2”. Tornava-me um humano fluído e sem gênero. Tornava-me alguém desacordadx e abandonadx.
[...]
- Acorde menino! Se seu pai lhe pega aqui fora com esta garrafa de vinho vazia, só Deus sabe o que acontece... – disse Orion, oxa empregadx da família, que cuidava de mim desde pequenx.
- Que horas são? Que dor de cabeça horrível. Devo ter me embriagado ontem a noite... Tive um sonho estranho.
- E que sotaque é este? Por que está falando desta forma, garoto?
- Sotaque? Sou oxa mesmx garotx de sempre! Com menos dignidade, dormindo bêbadx fora de casa, mas... Quem nunca?
Levantei como uma fada. Uma fada estereotipada que não andava, flutuava. E estava flutuando dentro do caminho da minha luxúria e lascividade. Abrindo meu manto florido e molhado, entre a negação de beber mais alguns copos de vodca com comprimidos, e a vontade de vomitar até as tripas no sofá que meu pai sempre sentava na sala.
Entrar naquele sepulcro que se chamava lar, não estavam nos meus planos imediatos. Mas, precisava de uma xícara de chá sem tempestades e catarses, um chá quente de sumiço e ressaca moral. Precisava da minha cama e do meu aparato de elemento fixo, meus discos e plumas, meus cigarros e minha caixinha de joias falsificadas. O rádio estava ligado na cozinha, fui até lá para desligá-lo.
As estranhas aparições foram registradas por telespectadores em todo o país. O presidente anunciou que serão tomadas medidas de controle e prevenção, para determinar as possíveis causas das luzes misteriosas e sinais não codificados em plantações. Há relatos de desaparecidos e mortes misteriosas por todos os lados...”
Orion materializava-se numa frequência estranha a mim, nos lugares que precisava que elx estivesse. Não contive o velho hábito de entrar nos lugares sem ser chamadx.
- Tudo está em ordem, vê se desliga este rádio Orion.
- Fiz um chá para você, não quero o ver doente.
- Vou tomar esta xícara e deitar. Se alguém pedir por mim estou desaparecidx como esse punhado de gente com sorte...
- Endoidou de vez. Agora fala o que ninguém entende!
Subi e dormi por dezesseis horas ininterruptas.


II.


Chovia lá fora e eu não conseguia mais sonhar pelo peso da minha própria consciência. Desci até a cozinha, roubando as flores mortas de um copo sobre a pia. Meu polegar ardia e só então percebi que não havia sido um sonho. Lá estava a D.Err(axo)ta!2.
Habitualmente eu enfrentava a chuva, para colocar a cabeça em ordem, não seria aquela tempestade que me deixaria ali dentro. Fui lá para fora.
- O que é aquilo?
Saí da estrada e corri em direção as luzes. Haviam murmúrios de vozes estranhas por toda parte. Talvez estivessem apenas na minha cabeça. Era como um chamado. Quanto mais perto daquele clarão, mais minha pele ardia. Até que a tempestade cessou, e fiquei cara a cara com uma sombra que vinha em minha direção. Pensei que fosse algum efeito da vodca com os calmantes habituais.
- Mãos ao alto, é uma abdução!
Tentava correr para me salvar daquelx Drácula de olhos delineados. Quando olhei para trás, acabei sendo engolidx por um DRAG(ão) que veio da lua.
Rodopiava dentro do espaço e tempo. Esticava e diminuía como em um buraco de “Darko”. Não estava mais no Kansas. Aquilo me parecia um tribunal, disperso no infinito não sólido.


III.


Sentadxs da esquerda para a direita, em um formato circular, estavam oxa.s deusxs ancestrais e seus signos, observando atentamente o diálogo que se travava entre o sol e a lua na abóbada celeste:
- Você tem o direito de se sentir prejudicx! – exclamou a Lua – Não desvie o seu olhar...
- Não desviarei meu olhar porque já não temo o mal que me causastes! Como direi e pretendo elucidar para vossxs senhorxs! – oxa Sol preencheu o lugar com seus raios e sua voz, ressoando pelos limites de expansão de toda matéria do universo.
Ainda em processo de entendimento, eu estava trocando de pele. Era como se sentisse uma mão escura e pesada, esmurrando minha garganta tentando sair pela boca, quebrando todos os meus dentes e ossos. Eu sentia que aquilo que eu tinha, naquele plano espiritual, era como uma pele ou casca elástica, flácida, de um homem sem moral e culpado. Culpado por ser um homem. Culpado por não ter moral.
- Culpadx, culpadx, culpadx... – ouvia-se por toda sala.
- Acalmem-se poderosxs deusxs! – Gritou o Deus Oculto, parando a barca do sol.
- Sentem-se... – Levantou Ísis, impondo ordem ao Caos – E Deus Oculto, eu sei seu nome, lembre-se que o livrei do veneno da serpente...
Culpado ainda ressoava dentro da minha caixa de Pandora.
- Deusxs soberanxs – continuava Ísis – o fato que deve ser julgado aqui não é o envolvimento destes dois astros no universo celeste, mas o resultado que dele se procedeu. O oráculo previu que dentro desta sala estaria o traidor que trouxe Serket, a Deusa Escorpião, do mundo dos mortos. É este crime que deve ser julgado. Do que vale o poder de uma palavra perante o império de um silêncio? Julga-se aqui o que não pode ser falado, mas compreendido neste plano espiritual elevado. O que me dizem sobre isso presentes Sol e Lua?
- Digo sobre minha conduta, que apesar de iluminar o dia com meus raios, cegando a visão de qualquer inocente, nada tenho com isto! – Disse o sol, recusando-se olhar para a Lua.
- Pois nada tenho a declarar sobre o fato. Permaneço em silêncio sobre todas as minhas fases, durante as noites mais claras e mais escuras. Sobre a sombra dos que dormem, garanto que nada vi!
- Eu apenas fecundava os meus versos, e criava nos meus pastos um rebanho de ilusões! Não foi minha culpa ter perdido a rota, em um entroncamento de rios encaracolados, dando de cara com o frondoso Castelo Maiano, revestido com vinte e uma pastilhas nos mais variados tons de prata... – continuava o Sol.
- Diz uma antiga lenda, que a cada dez mil anos duas almas são postas em silêncios mortais para celebrar a complexidade dos tempos. Se usássemos a máquina para amarguras, Pranayama... – sugeriu Buda.
- Você não pode tratá-lxs assim! – Interrompeu Ísis – Elxs possuem sentimentos! E por ter passado por bilhões de galáxias e esferas celestiais, sabe que não estarão desamparados e sós dentro de suas amarguras. É loucura pensar na solidão...
- Levem em consideração que cresci sobre a tirania de um.xa líder opressor.xa, que deixava que meu brilho se restringisse ao brilho delx, colocando sobre mim metade de todas as sombras e espaços vazios universais – disse a Lua.
- Preciso expurgar tudo que sinto! Este discurso talvez seja longo prezadxs Deusxs! – o sol levantou-se como se fosse o horário do meio-dia – Eu sabia que não encontraria você Lua, nem na borra de café, no horóscopo semanal ou em um trevo de quatro folhas. Não estaria lá porque você é como o tempo, inconstante e mutável, de fácil maleabilidade e difícil compreensão. Não estaria mais lá sendo oxa mesmx duas vezes. Nem se torturasse Chronos, senhor do tempo eterno e imortal, enfeitando todos os segundos multiplicados em minutos, “tic-taqueando” sobre os dias e as horas intergalácticas e extraplanetárias. Elx era a pessoa certa na hora errada, como um espelho quebrado com duas projeções, um buraco de minhocas e seus mistérios. Como você pode ser um rascunho ou uma sombra, quando está constantemente escrevendo a sua e outras tantas histórias? Não pergunto meu signo de representação, quando vejo a ingenuidade de uma criança humana me desenhando plano e arredondado. Como se fosse apenas um signo. Não ligo para a imagem. Todos os dias ela se desfaz e se refaz, perpetuando novos horizontes e signos. E são ávidos estes períodos em que lhe vejo partir com Serket, dizendo não saber para onde está indo. Percorri o mundo das súplicas de joelhos, andei quilômetros solitárix. Hoje compreendo que o que tinha não era o fardo de uma doença ou a sombra de um mundo. Apenas era o impulso de uma estrela jovem e selvagem, que me deixou mais forte do que eu pensava que fosse. E o que me diz agora Lua?
- O que queres que eu diga? Já não está fartx de me fazer suas perguntas, [s.(e-u).axu ] arrogante? Prefere que eu responda de um modo erudito, de um modo bonito, ou com outra linguagem menos rebuscada?
- Prefiro que seja verdadeiro e menos ensaiado.
- De toda verdade, eu não sei. E não sabendo já me encontro em algum processo. O que você teria ainda para me ensinar, que eu já não saiba ou não tenha aprendido?
- Você se ouviu dizendo isso?
- Sim, em alto e bom tom – encarava o Sol com um silêncio, sem feições – O que tem naquilo que eu digo?
- Não está no que diz, mas no que não diz. Difamastes a minha terra com seus pretéritos! Veio até mim provocando um eclipse quando já estava se programando para receber Serket, no ritual de cinzas. Paciência. O tempo derruba até oxa.s mais sábixs, faz deles refém de suas próprias escolhas, conclusões e argumentos. O tempo transforma a terra, modifica a paisagem, enriquece oxa miserável, deixa também na miséria oxa mais afortunadx dos seres. Ele lhe enche de rugas, lhe tira e lhe traz moralidades e imoralidades. Concede todos os seus desejos e sonhos, quebra todas as delicadezas das coincidências.
- Não acredito nelas. E não é o tempo que faz tudo isso, sou eu e o mundo.
- Venerável. Rendo-me ao seu raciocínio. Mas, você e o mundo são feitos de tempos. E refeitos também, com este mesmo pensamento. Cada pedaço seu tem um tempo esgotável. Coloque o nome que queira colocar sobre isso, pinte com a cor que lhe apetece... Até este diálogo já está no tempo passado. O que quer fazer pelo seu tempo presente?
- Isto está errado...
- O tempo também é um erro. Você abandonou tudo por amor?
- Não preciso falar sobre isso.
- Não me diga que seu reino está ameaçado por sua doença... Somos dois universos adoentados, em contrastes diferentes. Estamos fadadxs ao próprio processo de nossas mortes e extinção. Eu quero sempre me defender demais, andando na defensiva, enquanto você não tem nenhuma defesa. Não é uma doença que separa nossas condições... Isto nunca foi um problema para mim.
- Eu discordo, e creio que não...
- Carxs deusxs, Lua soberanx dos campos do sul e Sol das montanhas do norte, não importa o que foi dito ou feito – interrompeu Ísis, percebendo que não chegariam a conclusão alguma – estamos deliberando sobre a capacidade de falta da compreensão, onde pelo que se entende, a comunicação se fez restrita e falha, não é mesmo? Refaço outra pergunta sobre este processo que lhes abateu, quando eclipsadxs um pelo outrx, digam-me, estar em primeiro é sinônimo de visibilidade e iluminação? O que é estar iluminadx? Não, não responda Buda – fez sinal com a mão para Buda sentar novamente no seu lugar – Precisa-se chorar rios e oceanos com melodramas, sobre os pesos que vocês mesmxs colocaram sobre as coisas? Julgo também por encerrado o motivo ao qual nos reunimos nesta presente e já passada data...
- E a quem recairá a responsabilidade deste crime de carma? – perguntou Thêmis, deusa da justiça.
- A ninguém. Houve a invocação de uma deusa celestial do mundo dos mortos, por intermédio de magia negra ancestral, porém as consequências recairão sobre a consciência das partes, que se pesada não terá sossego até nas horas mais escuras dos dias e das noites. De fato, que isso seja por aqui encerrado. O que me diz Sol, já que não aprendeu ainda a silenciar-se?
- Lembre-se Lua que neguei e continuarei negando a sua oferta.
- Podemos até sentar conversar sobre isso – respondeu oxa Lua – O que mais quer saber sobre mim? Quer que eu me redima por viver a minha vida da maneira que eu bem entendo? Eu estou pensando em mim, e não deixarei de fazer isso. Deveria pensar no mesmo.
- Não. Devo pensar naquilo que desejo. Estarei por aqui e não quero que você me reconforte com o horizonte. Se eu virar matéria escura no céu noturno, estarei infinitamente mais sólidx e disperçx, como meu amor por ti. Aceito esta derrota, mas não aceito permanecer derrotadx. Então é isso? Você acha que não teremos mais nenhum tempo futuro?
- Creio que não. Fala muito sobre um tempo que não é nem mesmo meu.
- Não tem problema. Você apenas está sendo sincerx. E eu não posso mais viver com isto sobre minhas costas. Não estou preparadx para viver desta forma. Não consigo viver assim. Me desculpe. Eu sempre amarei aquelx que eu conheci, toda a estatura, toda a forma e sua própria adequação.
- Eu mudo de formas, nas mais variadas épocas do ano, entenda...
- Eu te amo tanto que mesmo que o céu caísse sobre mim agora com todas as suas estrelas, não me importaria, pois teria a firmeza de seus olhos e a maciez dos seus lábios, o encaracolado de seus cachos. Eu amo tanto a mulher e o homem que você é. Amo suas dores e não posso descrever de uma forma concreta todas essas coisas. É como se o mundo coubesse completamente sobre meus braços, e eu conseguisse unir os continentes em uma Pangeia sentimental...
- Quanto sentimentalismo. Peguem elxs vadias! – Gritou “Mother DraGui”. Estava aberta o começo de uma guerra espiritual.


IV.


Minha pele flácida e elástica rompia-se como uma corda em um cabo de guerra. Aquela sensação de parto, apertava a minha garganta. Toda a disformidade viscosa e negra que sapateava sobre minha cabeça, e rodopiava dentro dos meus ouvidos, enegrecendo a minha visão, estava para nascer. Era como estar morto gerando outra vida, e dentro desta vida falar sobre a vida, como no mundo a metalinguística explica a palavra pela palavra. Nascia em mim outrx de mim.
O movimento era contrário, sem uma imagem. Então nasceu, sobre os olhos descuidados e desinteressados de um.xa meninx noventa e seis. Era escurx como a mentira e o silêncio, em um tom uniforme e brilhoso, mas com uma flor sobre os lábios. Regido sobre a regra da natureza, onde o que brilha pode ser perigoso. Quem sabe nasceu em mim outrx de mim um tanto quanto melindrosx. Daquelxs que nunca reparam sobre outros olhos, amando apenas uma coisa e não o que ela representa.
- Peguem elxs vadias! E tragam aquelx “Le Freak, C'est Chic” em trabalho de parto até mim...
Todas as cores do tribunal foram desestruturadas. oXa.s deusxs em cólera rompiam as barreiras do visível por todos os lados. Atiravam contra um batalhão de armadura prateada, em uma formação de “Sissy”, protegendo oxa Lua que já havia feito previsões com um meio sorriso no rosto.
O pássaro parou sobre o ar, enquanto o movimento dos planetas era posto ao contrário. Deus Falcão gritou sobre todos os grãos de matéria sólida do universo. Ísis escureceu seus olhos, abrindo suas asas e derramando sobre o não espaço um caminho de leite materno, via lácteo, proferindo lamentações e injúrias. Seu grito de dor movimentou o carro alado do deus Sol, e acordou Zeus normativo e os deuses do panteão grego. Subiram com suas carruagens e trajes de batalha, rompendo com a simplicidade do giro em sentido horário.
Os deuses nórdicos ancoravam seus barcos flutuantes perto da resiliência. Serket com seus impropérios cativava um canto melodioso e enjoado:
- Resiliência é tomar no meio do seu cu.
Justo elx que de tanto trocar de cadeira, já tinha feito o cu até perder o a(ss.c)ento.
Dentro da nave, rompendo o escuro paradoxo de professar um ato político covarde, para universos infinitos de estrelas e um, sentia sobre mim o peso de um quarto das distâncias adquiridas. Era como se estivesse com minha bússola mental quebrada.
As violações se cessaram, quando abri minha boca, rompendo com aquela luta silenciosa e sem palavras. Sentia a primeira contração do meu parto:
- Parece estranho, mas se tiver que pedir desculpas, eu peço desculpas... Não estava ciente de determinados processos que o universo me trouxe, e não sou uma pessoa de silêncios ou ruim...
- Agora é tarde, não poderão evitar o processo. As rodas do destino estão em movimento – disse Serket, continuando seu canto sorrindo.
As três irmãs Moiras, tecendo o fio da vida dos humanos e deusxs, ofendidas pelos xingamentos contra seu pai Moros, deus do destino, apareceram sobre os anéis de Saturno com sua Roda da Fortuna oxa desafiando com uma tesoura:
- Esbraveje mais uma vez sua vitória, que oxa transformo nx maior dxs derrotadxs!
- Quem é o culpadx por esta criatura humana gemer em agonia, rodando no infinito como sala de parto? – perguntou Ísis.
oXa Sol padecia sobre um leito de raios dourados, não conseguia responder por estar em desolação. oXa Lua em serenidade tornava-se quem era de fato, uma lua minguada de face oculta. oXa.s deusxs tomavam seus lugares perante o tribunal novamente. Buscava-se por ordem, transformando o meu parto em um espetáculo assistido, celebrando-se o nascimento do outro eu, dentro de um caldeirão de ferro, em um quintal de estrelas. As “DraGuis” estabeleciam os termos de um acordo, enquanto Ísis retomava seu posto e refazia sua pergunta:
- Alguém é responsável por isto?
- Creio que tenha sido eu – respondeu “Mother DraGui” – Buscando por olhos acabei partindo em silêncio, eu e esta criatura não dividíamos a mesma linguagem. Não cogitava que após o primeiro contato o deixaria com um fruto interno lodoso e negro, que estivesse o corroendo e destruindo por dentro. Como saberia que este sentimento assumiria outra forma, dando-lhe outro corpo imaterial... Dando-lhe uma linguagem... oXa transformando em um.xa garotx com “X”?
De pernas abertas e desacordadx, celebrava o renascimento da madrugada, com o seu manto escuro e a trilogia do céu mitológico. Ísis pediu para que levassem até o caldeirão a tesoura das Moiras, um jarro de água do Nilo, e panos limpos. Concluiu com uma voz sentenciosa:
- Pelas forças do universo, e pelos termos sugeridos por todo seu exército “Mother DraGui”, minha sentença é que não pague pelo seu crime nas mãos e julgamentos brutais do mundo humano. Quero que fique ciente porém, que este ato lhe será cobrado, não por mim, mas por quem daqui, deste tribunal, que desejar o cobrar... Crio também, um novo código de conduta chamado “D.Err(axo)ta!2”, para todxs que foram derrotadxs pelas armas da vida, que acostumadxs com o silêncio ainda propagam o mesmo silêncio, deixando lacunas no espaço e tempo da memória. Mas, são merecedorxs de uma recompensa: fugir da roda das reencarnações carmáticas e amores rasos. Que esta língua EXISTA. Ela se tornará a vitória sobre o medo, a revelia de quem espera com respeito a verdade não dita, o desejo... Olhem! O (re)nascimento...
Enchendo o tórax de ar, a criança não chorou, abriu seus olhos e bravejou o seu nome com força:
- Sou aquelx que (res)pira com o (peito), podem me chamar de “RESPEITO”.
Involuntariamente surgiu de sua boca com sobressaltos oxa [s.(e-u).axu] irm(ã-ão), que acrescentou perante o espanto de todxs:
- Sou aquelx que (am)olece o que é (or)dinário, podem me chamar de AMOR, mesmo que involuntário”.
Os gêmeos subiram a bordo da barca do sol, indo ao encontro de Castor e Pólux, esparramando-se dentro de um verso longo e calmo.
- Coloquem esta criatura humana no Argo e a levem novamente a Terra. Ela precisa de um pouco de realidade após tanta ficção – disse Ísis.
Eu não sei o que aconteceu após tudo aquilo. E não saber foi a melhor coisa que já fiz na vida. Nem toda história é feita de palavras. Algumas são feitas com o silêncio. A galáxia dormiu em paz, sem monstros embaixo da cama. A lua girou, o céu contorceu. No sol era amor. Na Terra com os Argonautas, eu gritei:
“- Break the news—you're walking out…” – No céu estaria para sempre a marca do meu nascimento.


V.


- Oh! Ele está acordando...
- O quê?... Onde estou Orion?
- Está no hospital recuperando o seu gênero. Estava alucinando em casa, fora da normatividade, falando sobre um sujeito sem estereótipos e livre de julgamentos. Pensamos em conjunto e achamos que estava louco. Seu pai o internou para tratamento. Um tratamento milagroso. Ele mesmo é um machista em recuperação...
- Me tirem daqui! Vocês nunca poderão fazer de mim o seu depósito de lixo, sou detentor de um punhado de memórias atemporais, viajei por inúmeros espaços...
- Doutor! Doutor! Sedativos! Sedativos!
- Filho!.. Segure o outro braço dele Orion! – disse meu pai correndo em minha direção quando entrou no quarto – Ainda bem Doutor! O que irá fazer com ele?
- Não se preocupe, será silenciado. Diga meu jovem, o que você é?
- Eu não sei – respondi.
- Diga para seu pai que é um homem!
- Eu não sei se o sou! Sou filho do meu tempo!?
- Assuma a culpa que lhe cabe... Você é culpado! Culpado por não ser um homem! – dois enfermeiros me colocavam para dormir.
- Machista em recuperação, querido homem-pai? Pois não lhe cabe bem este papel... – fechei meus olhos e nunca mais os abri. O mundo havia matado mais um derrotadx. Apenas uma criatura humana que abrigou e gestou o amor e o respeito.
Na parede do quarto estava a foto de um homem morto. Um homem que nunca foi apenas um homem. Partiu com sua mala para as estrelas, encontrando o abraço de              [s.(e-u).axu].s filhxs já crescidxs e empoderadxs.
FIM.


sábado, 5 de maio de 2018

ME. (Femi) .NINO

Acordei com aquela vontade de ser criança e tomar chá imaginário em uma xícara de plástico cor de rosa. Pular de piso em piso, subir em galhos, viver de mentirinha até a luz do poste da rua acender. Aquela velha vontade de não entender porque minha mãe está sentada lá fora chorando, meu pai está fora de casa trabalhando, minha irmã na escola estudando, minha avó na cozinha tricoteando, e eu com meu Batman de brinquedo defendo um mundo de grampos de roupas da destruição.
Acordei com aquela severa vontade de ir ao banheiro vomitar, depois de ser enquadrado de madrugada pela polícia no bar, por não estar fazendo nada de útil para a minha nação, por tramar usando vermelho a minha conspiração, com as unhas das mãos todas pintadas como uma cigana. Pulei cedo da cama, estraguei tudo de novo pela madrugada, despejando palavra atrás de palavra, entendendo agora o valor de um silêncio bem feito.
Em outra época saberia como salvar o mundo com meu roteiro de brincadeira, impedindo a invasão alienígena geradora do caos. Não me atentava com o telefone da sala que tocava, com as músicas que meu pai escutava, com o barulho que fazia quando gritava comigo mesmo rompendo com o silêncio das tardes úmidas de chuva. E que lembrança de chuva, não a de hoje que encharca meu rosto e rompe o tempo.
Acordei quem sabe agora? Talvez fosse o momento. O rosto amassado no travesseiro, jogado por horas embaixo do chuveiro, não pensando no equilíbrio do planeta Terra. Está tudo desequilibrado por dentro. Passagem sobre o rosto do tempo. Era para ser assim? O espelho nada responde.
E sabe, olha do que fui me lembrar! Daquela antiga foto de quando tinha cinco anos, vestido com a camisola da minha mãe, de pano na cabeça, com um buquê de flores indo me casar. Das vezes que esperava todo mundo ir trabalhar, para subir sobre um par de sapatos, dublando músicas com sobressaltos, não entendendo todo aquele processo.
São duzentos anos de Marx, sete anos de Judas da Gaga, quase um quarto de cem de vida para mim. Para onde for não haverá uma saída. Não me enquadro dentro de nada, mas sou enquadrado pela polícia. Talvez e só talvez, sirva um chá imaginário com os brinquedos da minha sobrinha, se me der vontade de me matar ou quebrar toda a cozinha. Foda-se. Hoje tenho um aniversário para ir, daqueles que se enche a cara e vive-se de mentirinha até o efeito passar. Não vou para casa quando as luzes acenderem. Até minha casa perdeu o significado. Não lembro de parar observar a luz acender a anos. É automático. Ela acende quando escurece e perdeu o significado prático. Não passa de um punhado de vidro com química. E eu dentro desta amargura anímica, esperando a próxima lua crescente para pensar sobre o que faço.
Acordei com aquela vontade de ser criança, daí me lembrei que ela já tinha morrido. Ingenuidade é um perigo. Não se fazem mais crianças como antigamente. Não dê bola, “O Senhor da Madrugada” mente. Dentro dele um menino feminino ainda faz festa.

Dia 05 de Maio de 2018, Vinicius Osterer.

sábado, 28 de abril de 2018

Aqui Estou

Não sou um mártir. Aqui estou. Estou novamente acordando pelas tantas da tarde, depois de ficar quase um dia todo acordado, respirando, produzindo e vivendo a vida. Enchendo a cara, com a resseca derradeira de um sábado abafado, precipitando o Samhain e a Lua Rosa de Domingo. E não sei, porque talvez alguma coisa tenha mudado por tudo aqui fora e aqui dentro.
Acordei com minha sobrinha me dando três flores de vinca e dizendo:
- Para você colocar na sua roupa Tio Vini!
Obviamente ela anda reparando que seu tio vem colocando flores mortas e artificiais por toda parte. Vem cultuando um punhado de plástico agarrado sobre metais e produzidos em série, como os amores modernos ou as tragédias que estou colhendo nos livros de leitura obrigatória. E o que vou fazer com um punhado de flores roubadas?
Ontem fiquei uma hora sobre o sol quente, tentando fazer com que florescesse em mim algum punhado de cor que já tive. E sempre volto para a tríade, de alguma forma, com Cailleach, o terceiro signo astrológico, o céu em escorpião, minhas três xícaras de chá pela manhã. Aqui estou. Seria propício acreditar na regra dos três dentro da simbologia dos meus dias, criando novamente velhas manias de retratos mentais já mortos? Trilogias, triângulos mágicos, três capítulos...
Alguns dizendo que vivo uma história pesada. Não entendo qual é o peso, se ele não me enverga sobre as pernas. Não é como me sufocar de ar, mas encher o peito com tanta profundidade e discordar que não existem coincidências. Olho de tigre no peito, sabendo da aliança que ele representa.
Fluir em movimento retilíneo constante, abrir sobre o peito um buraco que expurgue para fora o punhado de material que já não presta, que já senti, já sinto, já acumulei por muito tempo.
Quem sabe ninguém nunca entenda o punhado de referencias que coloco numa poesia e em um texto. Ninguém precisa saber que no meu novo livro repleto de mitologia eu perdi o mito, criando diálogos imaginários que nunca tive e adaptando os que gostaria de ter tido para evitar um punhado de silêncios. Ninguém precisa saber qual é o terceiro signo, sobre o que é a trilogia, qual é a minha fórmula de derrota e fracasso. Ninguém precisa saber, porque ainda estou aqui. Ainda posso dizer o que quero, da maneira que quero, sem precisar explicações. E me perguntam o que tanto escondo. Não há nada escondido, está tudo aqui, de uma vírgula a um ponto de exclamação!
Andei perguntando para a Lua o que ela tinha para me dizer sobre isso. Parei para escutar a terra, enchendo meus pés de sabedoria. E sabe o que vou fazer com todo o meu amor? Não vou transformá-lo naquilo que mais desprezo, nem em amargura ou ressentimentos. Toda vez que desejar lhe bater com força, coloco uma semente em um vaso. Nas vezes que lembrar de todos os seus silêncios, coloco duas. Nos dias antes de dormir que pensar em como fui idiota, coloco três. Para cada mentira que você me contou, mais quatro. Depois disso, quando vier o Equinócio de Setembro, que me fez Senhor das Madrugadas, espero ter um punhado de vasos floridos das sementes que plantei. Quero reunir todos que amo, fazer um chá no gramado de baixo, e distribuir os mais variados tipos de cores e odores. Não posso machucar o mundo se fui machucado. E ainda espero que sejas muito feliz. Você não é uma sombra, é o processo.

Dia 28 de Abril de 2018, Vinicius Osterer.

sábado, 14 de abril de 2018

ACIDENTE DO ÚLTIMO DIA 22


Acidente nas Bahamas deixa três mortos e um ferido, entre eles Stefani, renomada Escritora Felina.


Um acidente fatal, no último dia 22, deixou três mortos e um ferido na cidade de Nassau, nas Bahamas. Segundo as testemunhas, um carro em alta velocidade acabou invadindo a pista e atingindo três turistas brasileiros, que andavam pela marginal Bay Street. Entre as vítimas fatais, encontram-se um jovem de cabelos enrolados, ainda não identificado, com aproximadamente 21 anos. Vinicius André, 24 anos, que estava na cidade em um processo de recuperação de uma cirurgia cardíaca, e a escritora Stefani, reconhecida mundialmente pelos seus inúmeros títulos como “Em Busca do Novelo Perdido”, “O Grande Catsby”, “Os Mimiseráveis”, entre outros.
Uma semana antes da viagem, a autora dos principais Cat Best Sellers, recebendo o prêmio Whiskas da academia felina de Letras, concedeu ao “Senhor da Madrugada” uma entrevista exclusiva, falando um pouco mais do processo de criação de sua próxima história, baseada na dicotomia de Dona Chica e os gatos.
Na ocasião, a escritora disse que estava em processo de finalização do seu novo drama, questionando segundo suas palavras “o que há por trás dos olhos de Dona Chica, a velha rancorosa que atira pau nos gatos? Ela é psicopata? Desvairada? Apenas uma mulher qualquer?” No final da entrevista ela acabou garantindo “o desfecho irá surpreender todos vocês!”. E acabou nos surpreendendo! O lançamento do livro póstumo, está previsto para o segundo semestre do ano que vem.
O ferido passa bem, e por ainda estar transtornado com o acidente preferiu não se manifestar sobre o fato. A polícia local investiga as circunstâncias do acidente. O motorista acabou fugindo e não prestando primeiros socorros, abandonando o veículo duas quadras do local. A família das vítimas e o governo dos dois países, estão organizando uma força tarefa, não medindo esforços para encontrar o foragido.

A vida não deve ser levada tão a sério. Me questionava se isso tudo que eu faço não é abstrato e irreal. Afinal, a fantasia não é concreta, é apenas simbólica. Mas todos os seres humanos vivem de simbologias diversas. E porquê isto não seria real?
É real para mim se passa a fazer algum sentido. É a minha forma de encarar a vida, colocando erratas, sentenciando meu futuro com palavras claras e limpas. É um erro não falar, não expressar, isso que mata as pessoas aos poucos. Isso que me matou naquele dia, o processo de silêncio e descobertas. E deixando todo este humor de mal gosto de lado, esta é a representação do meu último dia 22, o dia do último ato de amor público.
Perdi três corações em um só dia. O meu, o do jovem desconhecido (que achava conhecer) e o da minha eterna “Mãe Mourisca”. Coloca agora uma frase bacana, um efeito visual moderno, um meme sobre como tudo é simples, e movimenta seus lábios para cima, erguendo os olhos e a cabeça, todo seu corpo. Joga fora (TEMER) o que é ruim, recicla o que for bom, e faça uma vigília. Afinal, foram três mortos.

Dia 14 de Abril de 2018, Vinicius Osterer.

sábado, 7 de abril de 2018

Propósito

Ela retornava para casa toda ensanguentada, com seu filho nos braços. Ele apenas queria servir ao seu Deus, com um único propósito. Orava de joelhos todas as quartas, enquanto ela distribuía refeições aos necessitados, de olhares duros, cabelos desgrenhados e dentes por cair. Beirava agora a insanidade das ruas, admitindo para si mesma a não existência de Deus e nem do sujeito homem.
Injustiçada ela carregava seu filho nos braços já sabendo, que a terra devoraria aquela carcaça fria de bicho duro e morto. O garoto exalava um cheiro de morte nova, misturado com o fedor das lixeiras da cidade, dos animais atropelados e a infestação de fumaça, que recobria com uma camada espessa o horizonte acrescido de cinza por todo lado. Cinza estava na moda, na capa da revista, na cor da estação.
Intimidada ela parava, observada por um punhado de vozes em diferentes categorias e graus de olhos. Como ela chegou lá? Pergunte ao padre e aos vizinhos. Como ele foi morrer assim? O propósito sempre foi este.
Era um dia como outro qualquer, era um menino de olhar gelado e cabelo louro qualquer, ele ia para uma igreja qualquer. E qualquer coisa que não esteja ligada a este fato é uma coisa qualquer. Se sua mãe o idolatrava? Preferia o milagre dos santos, pendurados pelas paredes da sala.
- Tchau Mamãe.
“O que esse menino tem hoje?” ela pensou. Pensou porque era obrigada a pensar. Pensou porque não poderia negligenciar seus pensamentos, e eles vinham na sequência da sua solidão, de uma mãe abandonada com um filho para criar, com a louça da pia para lavar, com a comida da mesa para servir. E seguiu, fechando a porta da sala de estar, com o celular na bolsa desligado, um coração apertado dizendo “corre atrás do seu filho!” O que ele fazia tanto naquela igreja?
O estranho é que o menino nunca teve aquele olhar. O olhar silenciado, vago e sem presunção. Era como não olhar mais para os redondos olhos de seu garoto de nove anos. O garoto sem década de vida, que somava aos seus sonhos as vivacidades e cores de uma infância. Era como não olhar mais para o recém-nascido, que agora ia todas as quartas feiras rezar numa linguagem morta, para alguém que já estava morto, mas ainda redimia todo o pecado.
Ele entrava na igreja como uma sentença ou final de frase. Era um cale-se para sempre, condenação de morte, cadeira elétrica. “O que esse menino faz aqui? E hoje?” Lembrou-se que não era quarta, que não era sua roupa de sair, nem seu calçado de andar na rua. E lembrou-se que era uma mulher separada, desempregada, sem fé alguma na sua própria salvação. Curvou a cabeça, olhando o caos. Tudo aquilo que lhe cercava estava perdido.
Era bandido atrás de bandido, mordendo o próprio rabo de uma cobra que não tem fim, sempre dando um início e nunca dando o próximo passo. Então correu, correu o quanto pode, desprendendo os pés do chão e movendo seus calcanhares até a porta que se fechava. Dentro de si teria um ventre com seu bendito fruto de olhos amargos e desnorteados. Dentro de si teria apenas medo, de se enterrar na sua vida vazia.
O padre o esperava, como quem espera ajoelhado o milagre da eucaristia de Cristo. Sem blasfêmias ela fez o sinal da cruz, vigiando a certa distância toda cena. Seu filho conversava com o padre, como uma pedra fria, um objeto sem coração. Logo o menino que era tão sorridente. O menino que brincava como outro menino qualquer. Não era o mesmo que sorria aos quatro meses com qualquer baboseira que lhe faziam, quando escondiam o rosto e numa explosão de surpresa, mostravam uma cara toda desajeitada. O que acontecia naquela igreja? O porquê do olhar de gelo?
Um retrato doentio chegou sobre os seus olhos. Como a noite vem vindo e dando os seus próprios sinais, escurecendo o céu e ligando as luzes da cidade. O menino desfivelava a cinta da calça protagonizando o ato, com seus olhos vidrados e pouca altura de matéria. Um cinturão de estrelas rodeavam seus dedos, enquanto masturbava o representante de Deus sobre a Terra. Então ele disse:
- Coloca a boca.
O menino desajeitado e sem fôlego, colocou. Não era como chupar laranjas, era uma fruta mais amarga com gosto de nojo e vômito. Era como engolir uma chaminé de fábrica ou como comer e despedaçar cigarros com os dentes. Um vírus que nasce, alguém morrendo de fome, levando um tiro a queima roupa, subindo para o espaço, decaindo na miséria, e os olhos dela, mãe, que sombreavam com retinas tortas, com um gosto de vitamina de Hepatite na boca, sem saber a quem recorrer se estremecendo e gritando:
- Largue meu filho seu pervertido, filho de uma puta!
A igreja se tornou um caos e um abismo. O mesmo caos que rondava todos lá de fora estava instalado nos bancos da frente, de joelhos rezando. Sobre seus pés os precipícios morais todos abertos, e as damas virginais que choravam enquanto sentiam o calor do fogo de um inferno feroz, cheio de vozes anêmicas e sufocadas. Das paredes exalava-se um fedor, impregnado de tinta à óleo, cenas bíblicas sobre a vida e obra de Cristo. Das prateleiras, desciam com seus mantos coloridos os santos, cheios de garras, em procissão e vigília. Todas as figuras religiosas se revoltavam contra ela, formando uma barreira cada vez mais espessa entre seu corpo e seu filho. Saiu gritando assustada, não conseguindo esquecer aquelas coisas quaisquer olhando para ela na vertical.
BUMMM. Caída sobre o asfalto.
“O reino dos céus é para os justos, de bom coração. Deus quer ao seu lado quem é bom. Na presença dele todo o mal cai por terra. Ele separa a videira seca da produtiva, semeia em campos considerados inférteis, concebe por sua graça o inconcebível, doma leões e amança todas as feras. Faz brotar água no meio do deserto, salva quem é seu na hora da agonia. Nele tudo é uno e partilha. É presente, passado e o futuro. Com seu filho e o coro dos anjos ele é justiça. E sobre ele estão todas as constelações de estrelas. Abaixo dele estão todos os universos. Sobre seus pés estão as serpentes e demônios. Com uma palavra ele liberta todo o pecado”.
- A senhora está bem? A senhora está bem? Ela foi atropelada....
- Meu filhoooo! – Em um mundo de poucas palavras, ela era um grito. Levantava do chão e voltava a igreja. Os seus gemidos eram de pavor, e lá fora questionam se ela era louca. Lá dentro no fundo de tudo, seu filho ainda estava com o mesmo olhar de gelo.
Batendo o coração como quem bate uma punheta, a mãe grudou seus sapatos sobre o chão, impedida de mover os pés com um punhado de esperma na boca. Seria força divina? Os gritos eram abafados pelo tempo lá de fora que não parava.
Personificada como o olho de Hórus, ela podia ver tudo imóvel. Não eram as mesmas imagens dos quadros decorativos da sala de estar. E se lá fora questionavam sua sanidade, passava também a se questionar, seria um daqueles sonhos que não conseguimos acordar mesmo tentando? Mas ele é o seu filho. O belo menino de louros cabelos, saído de suas entranhas. Ela não iria perdê-lo para Deus.
E indo para fora no meio da zombaria, correndo com todas as suas forças, pavorosamente gritando com um olhar duro, cabelos desgrenhados e dentes por cair:
- Me ajudem! Por favor, me ajudem! Meu filho está sendo estuprado!
E caída na sua humilhação só ouvia os risos das pessoas que não ligavam para suas afirmações. Era o mesmo que dizer que “o fim está próximo” banalizada como o esgoto humano que acabava de aceitar ser.
Com a pedra sólida de fundação ela foi arrastada por sua demência, não foi buscar por um pedaço de pão, mas por mais da mesma ultra violência. Forçada e impedida de dar grandes passos, corrompida pelos medos vitais que a consumiam, colocou força onde não conseguia mais colocar nenhuma fé. Arremessou uma pedra com exatidão e precisão que nunca teve.
Doía dentro do seu coração com aperto. Doía mais tê-lo afastado de seu corpo sinuoso de mãe. Era a vida que seus olhos pressentiam ardentemente, como fogo que cai do céu numa tempestade severa de raios. Era uma medíocre em acreditar na fé, ajoelhar e sentir que um milagre invadisse seu peito. Rolando pelo chão a pedra voltava para seus pés cheia de sangue, e no chão não haviam mais precipícios, mas um bicho endurecido sem vida. O que ela fez? Seu filho está morto. Onde está aquele padre? Só lhe restou a pedra.
- Oh meu senhor, meu filho está morto! Meu filho está morto! – ela arrastava como podia o mesmo filho de olhar gelado. Talvez vivesse morto por dentro sem ninguém notar.
Os vizinhos assustados iam para as janelas. “O que essa louca fez?”, “Chamem a polícia. Ela matou o filho!” E em prantos retornava com ele para casa. Com sangue nas mãos não era capaz de olhar para o céu.
- Então você tem seus protegidos não é mesmo Deus?
Enfim quando olhou para cima já era tarde, seu filho estava frio como o olhar de antes. Desperta o relógio, é hora de acordar. A freira atordoada com o pesadelo levanta para mais um dia no convento, e termina de rezar suas Ave-Marias antes de lavar o rosto e colocar seu hábito religioso. Seria um dia penoso para distribuir caridades. Este era o propósito divino.

O SENHOR DA MADRUGADA, Vinicius Osterer.