sexta-feira, 3 de março de 2017

Poesia e Suicídio

Se já pensei em me matar? Não dizem que os poetas estão mais propensos a isso? Não dizem que quem sofre com dores crônicas sucumbem mais cedo? Estou dentro destas duas estatísticas. Por que eu não pensaria em suicídio? Primeiro, antes de tudo, devo alertar que pesquisei no Google a palavra suicídio, e me deparei com um verdadeiro suicídio ortográfico! Escrevia ela com acento no primeiro I. O que na hora da fala fica bem estranho. Já tentou falar assim? Dá nó no estômago, fica até feio para mim... Afinal, falo tanto assim que escrevo por anos e não sei escrever suicídio? Ninguém é perfeito, assim como o suicídio também não é.
Pensar que a morte pode apaziguar alguma coisa é se submeter a sua própria fraqueza. E é bom estar deprimido, sentir-se uma escória ou um lixo. Todos estes sentimentos são igualmente valorosos para a formação de grandeza do caráter humano. E nós, querendo ou não, ainda somos humanos (com algumas exceções, que prefiro não escrever aqui neste texto, já tão carregado de palavras de dor e negativas).
Se já tentei me matar? Sim e não. Acho que não foi tão intencional, como aquela vontade de morrer expressa tantas vezes nas cenas do cinema ou da televisão, nos contos e romances que eu já li. Não foi nada bonito tomar remédios para dormir e quando acordar sentir que ainda estava vivo, numa tarde de quarta feira de verão escaldante, depois de voltar da aula de inglês, sozinho em casa. Foi no ano que minha mãe morreu e as coisas não faziam nenhum sentido.
E se você ser destratado no colégio, tendo cinco amigos entre quinhentos e tantos, ser julgado e enfrentar desaforos, instabilidade familiar, personalidade ainda em desenvolvimento, dores sem motivos aparentes, forem coisas que não fazem sentido, então não sei o que é que faz. Sou da primeira geração do bullying, daquela em que o termo violência física e emocional, trazido para o português, começou a ser debatido.
E posso vos garantir: hoje sou eu que sonho com castelos, e não aqueles de areia que vemos nas praias, mas aqueles de pedras da Idade Medieval. Morrer? Todo mundo vai morrer um dia. Por que eu deveria adiantar as coisas? A vida é essa roda da fortuna!

[...]
Alguns comprimidos a mais não me matam,
Algumas palavras a mais não me tiram do sério,
Alguns planos fracassados não me interessam,
Os meus sonhos acabados não me importam,
O quanto você acredita em você muito menos.
Se tivesse algum tipo de veneno nessa casa,
Cansei do meu, tão ácido e mórbido.
Vou ter que sair daqui e fechar os meus olhos,
E eu sei que isso não vai ser um fim,
Por que eu morro quando eu quero.
Se não posso decidir o que ver, ouvir e falar,
O que eu posso comer e no que eu posso opinar,
O jeito mais belo que me sobra é tomar,
Comprimidos que me dopem desse mundo de hipocrisia.
Enquanto você sonhava com castelos, eu sonhava com a companhia,
Da felicidade ao apego da minha amiga morte.

(Vai Tomar No... - 2012 - O Diabo Vespertino e a Loucura - Vinicius Osterer)

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